O terceiro instituto para pessoas com deficiência visual fundado no Brasil


Um treinamento contra incêndio em um dos corredores do Instituto de Cegos Padre Chico envolvendo alunos, funcionários e professores ocorreu enquanto, em uma sala, concluintes do 9º ano experimentavam as becas para a formatura e, em outra, um grupo de voluntárias confeccionava toalhas, jogos de mesa e roupas bordadas para entregar as encomendas antes do fim do ano. 



Quinta-feira, 29 de novembro, foi o penúltimo dia de aula para os alunos que não ficaram de recuperação no Instituto Padre Chico, que está localizado no bairro do Ipiranga, na zona Sul de São Paulo. No jardim sensorial, crianças e professores partilhavam o lanche que cada um trouxe de casa, além de trocarem presentes durante a brincadeira de amigo-secreto. 



A estrutura tem 13 prédios e quase 25 mil metros quadrados e é uma das 13 obras que o Conde José Vicente de Azevedo deixou em São Paulo, sendo considerado Patrimônio Histórico Cultural da cidade.



Atualmente, são 125 alunos da Educação Infantil até o Ensino Fundamental II que têm aulas regulares pela manhã e enriquecimento cultural e esportivo à tarde. 



Além dos professores e das religiosas da congregação das Filhas da Caridade, uma psicóloga e uma assistente social acompanham os alunos e seus familiares. Crianças com deficiência visual, com baixa visão e que enxergam sem dificuldade dividem todos os espaços e o Instituto, embora tenha características de uma escola particular, é totalmente beneficente e sem fins lucrativos. 



Todos os livros, apostilas e cadernos em Braile ou com fonte ampliada são oferecidos gratuitamente, e todos os alunos recebem quatro refeições diárias na escola, além das aulas de Braile, mobilidade, balé, piano, teclado, violão, teatro e esportes. 



“Qualquer criança ou adolescente pode ingressar no Instituto Padre Chico, mas nossa prioridade são as crianças cegas de baixa renda. Ao todo, 95% dos alunos estão abaixo da linha da pobreza”, explicou, ao O SÃO PAULO, Ana Maria Rosalini, coordenadora pedagógica que trabalha há quatro anos na Instituição. 



O Instituto de Cegos Padre Chico, que atua com pessoas com deficiência visual, mantém o Colégio Vicentino Padre Chico, uma escola especializada inclusiva, referência em educação para cegos no Brasil, fundado em 7 de outubro de 1928. Desde a sua fundação, vive de doações de pessoas físicas e jurídicas e é dirigido pelas Irmãs da Companhia das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo. 



 



INCLUSÃO



“As crianças, desde que não sejam trabalhadas no preconceito, não veem as diferenças. A criança que não enxerga é como qualquer outra. Ela mente, esconde-se, ‘mata aula’, a ‘cola na prova’, brinca e cresce. São crianças”, afirmou Ana Maria ao ser questionada sobre a convivência entre as crianças que enxergam e aquelas que não enxergam.



Ana Maria salientou também os depoimentos de ex-alunos que se dão conta da importância de tudo o que conseguiram no Instituto para além da deficiência. “A deficiência não é o foco em nenhum momento, mas que eles consigam crescer e se desenvolver para que a deficiência não seja um obstáculo”, disse. 



Luciana Ruiz é professora de Português há 15 anos no Instituto Padre Chico e falou sobre o clima familiar que existe na escola, o que favorece imensamente a inclusão. “Aqui, conhecemos todas as famílias, sabemos da situação de cada um e das suas necessidades. As salas se frequentam e se socializam.” 



A Professora, que acompanhou a visita da reportagem ao Instituto, insistiu no fato de o foco não estar na deficiência, mas nas potencialidades de cada aluno. “Há alguns dias, um ex-aluno entrou em contato comigo pela minha rede social e disse que estava sentido a diferença na sua atual escola. Ele falou sobre o fato de aqui ser valorizado em suas potencialidades. ‘No Padre Chico, descobri que gosto de poesia, de esportes e piano’, disse ele”, relatou Luciana.  



“Eu penso que a inclusão está em construção na sociedade. As pessoas que estão vivendo a inclusão hoje vão conseguir transmiti-la em todos os lugares futuramente”, continuou Luciana.

 



 



PROFESSORES COMPROMETIDOS



Ana Maria explicou que o critério principal para a admissão de um professor não é ele saber o Braile, mas ter disponibilidade e compromisso. “A titulação é importante e aprender o Braile também, mas o principal é que o professor esteja disponível para acolher a missão que o aguarda no Padre Chico. Trabalhar aqui é dedicar, amar, acolher, ter esperança, vencer desafios e não ter medo deles.” 



Numa turma do 9º ano, seis pessoas são cegas, três têm baixa visão e quatro enxergam sem dificuldades. A pergunta que fazem recorrentemente aos professores é: “Mas os alunos cegos aprendem mesmo?”. Luciana explicou à reportagem que “eles aprendem e não aprendem. Para aprender, um aluno precisa gostar da matéria, fazer as lições, corrigir, fazer de novo... A visão não é, em si, um impedimento, porque o contrário seria o fato de todas as pessoas não cegas aprenderem tudo com facilidade, e a realidade mostra que isso não acontece”, continuou. 



No Instituto Padre Chico, as olimpíadas, as comemorações e todas as atividades são inclusivas. “Não existe um outro mundo para os cegos, existe um único mundo. Temos ex-alunos que são advogados, pianistas, massagistas, professores”, disse Luciana. 



Ao deixar o Instituto para cursar o Ensino Médio, os jovens devem procurar escolas com salas de recursos que oferecem, no contraturno escolar, professores que saibam o Braile e os ajudem a se adaptar às atividades. Segundo a legislação brasileira, se um aluno cego procura uma escola estadual no bairro em que reside, a escola deve, em 90 dias, adaptar-se para oferecer a ele uma situação inclusiva. “Mas, na prática, as mães acabam procurando aquelas escolas em que a inclusão já está estabelecida e, às vezes, essas escolas ficam a muitos quilômetros de distância de suas casas”, afirmou Luciana.



 



SONHOS



Diogo Costa Teixeira, 16, entrou no Instituto aos 6 anos e mora em São Caetano do Sul (SP). “Eu estudava em uma escola perto de casa, mas não conseguia aprender nada. Aqui, pela manhã, temos aulas regulares e, à tarde, aulas especiais. Faço aula de mobilidade e acho muito importante”, contou Diogo que pretende estudar Jornalismo para dedicar-se ao Jornalismo Esportivo. 



“Quase tudo o que eu sou, devo ao Instituto. Se não fosse o Instituto, eu não sei o que eu seria hoje. Se eu fosse pagar algo, deveria pagar um dinheiro infinito. Nem sei o que estaria fazendo hoje, caso não tivesse vindo para cá aos 6 anos de idade”, disse. 



Maria Eduarda Oscar Ferreira, 14, por sua vez está no Padre Chico há quatro anos, tempo em que mora no bairro do Ipiranga, desde que se mudou, com a família, de Embu das Artes (SP). “O que eu mais gosto de fazer aqui é explorar os livros. Gosto muito de ler. Quando entrei, os professores me pegaram num estado deplorável. Tinha muita dificuldade com escrita e leitura, e tive que correr contra o tempo”, afirmou a adolescente. 



Ao ser perguntada sobre seus projetos, Duda, como é conhecida, disse que pretende fazer muitas coisas. “Quero fazer alguma coisa com música, pois sou apaixonada por isso. Também continuar fazendo vídeos no YouTube, e quero cursar Psicologia”, disse Maria Eduarda, que mantém no YouTube o canal ‘Dudinhatags’. 



 



GRATIDÃO



Aos 14 anos, a filha de Rosimar Lopes Pombal, 52, paranaense, está se preparando para o último ano no Instituto. A mãe, que também tem deficiência, devido a uma paralisia infantil que teve com 1 ano e 8 meses de idade, conheceu o Padre Chico quando a filha tinha 5 anos e finalmente recebeu o diagnóstico de toxoplasmose, após anos de idas constantes ao hospital. “Ela começou a falar aos 3 anos e só quando completou 5 anos, diagnosticaram a toxoplasmose. Ela perdeu a audição e teve perda da visão”, contou Rose, como é conhecida. 



“É até difícil falar do Padre Chico, porque eu só tenho a agradecer. A acolhida que me deram desde o dia em que entramos aqui até hoje foi fundamental para minha filha. Minha vida inteira seria insuficiente para agradecer. Aqui ela se tornou um ser humano. Onde ela estudava, não tinha amigos, era excluída e não conseguia aprender nada. No início, quando viemos pra cá, eu pegava oito ônibus para chegar e ir embora, mas não dava para desistir, porque tudo o que ela sabe, aprendeu aqui: a passar roupa, a amarrar o cadarço, a andar nas ruas”, continuou Rose.



Para contribuir com o Instituto, Rose começou, em 2011, um trabalho voluntário, que foi crescendo e hoje promove bingos, chás, bazar e faz artesanatos sob encomenda. “Crochê, ponto cruz, costura e outros tipos de artesanato, além da encadernação do material didático, tudo fazemos aqui. Tudo o que é arrecadado é em função das crianças”, explicou. Juntas, as voluntárias já conseguiram reformar o parquinho e parte das colunas dos corredores. O brechó funciona de segunda a sexta-feira e as voluntárias aceitam encomendas. Outras informações em (11) 2271-1717. 



 



HISTÓRIA



Irmã Therezinha de Jesus Sanches Gonçales, 83, nasceu em Bauru (SP) e está no Instituto Padre Chico há mais de 50 anos. “No início, aqui funcionava como uma espécie de abrigo e, até alguns anos, os alunos eram internos da Instituição”, explicou a Religiosa, que faz parte da Congregação das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo.



Fundado em 1928, o Instituto acolhia pessoas com deficiência que estavam em situação de rua. Elas se reuniam e faziam vassouras para vender como forma de manter a instituição. O terreno foi doado pela família do Conde José Vicente de Azevedo, que doou vários terrenos para instituições religiosas no Ipiranga. Luciana contou à reportagem que, a pedido dos doadores, o terreno foi dedicado ao Padre Francisco Rodrigues dos Santos (1887-1960), que foi um exímio sacerdote e educador.  “Descobrimos recentemente que o prédio do refeitório foi construído em 1905 e que Padre Chico, que estudava na PUC-SP, veio abençoar o local”, explicou. 



“É por vocês, alunos, que todo este trabalho é desenvolvido com tanto amor e dedicação. Acreditamos que farão a diferença nos espaços que frequentarem, atuando para que nossa sociedade seja mais justa para todos”, disse Irmã Carolina Mureb Santos, Presidente do Instituto, ao fim da missa em que recordaram os 90 anos da instituição.


Data de Publicação: 19/12/2018

Fonte: O SÃO PAULO